Há mais ou menos um mês eu vinha sentindo uma dor bem aguda em alguns pontos da boca.
A primeira coisa que me veio à cabeça foi, claro, a possibilidade de uma cárie aqui, outra ali e por aí vai...

A última vez que eu tive cárie foi quando eu ainda era criança, lá nos meus 8, 9 anos... Lembro que, depois que eu voltei lá no consultório da doutora Zara, ela tinha me dado uma espécie de "sacolinha" com um monte de brinquedo, variando de um dentão feliz - que a gente usava como broche - até um certificadozinho te parabenizando pela ausência de cáries após o tratamento. Eita, orgulho!
Voltando, né?
Fiquei com essas dores em vários dentes e fui lá no Ricardo consultar.
Chegando lá, conversa vai, conversa vem, o assunto acabou chegando em IDADE.
Ele veio falando algo do tipo: "Ah, eu já 'tô com 40-e-tantos anos mas continuo com a cabeça muito nova", e tal...
E isso a gente percebe, mesmo: o Ricardo é o tipo da pessoa que dá a impressão de ter sido sempre daquele mesmo jeito - e que vai continuar assim, ou seja, não vai "envelhecer", mesmo.
Eu, que vinha pensando muito sobre esse negócio de idade, acabei perguntando: "Ô Ricardo, mas 'cê não sente saudade da época em que você era mais novo, não?"
Ele parou um pouco e me falou tanta coisa bacana, mas
TANTA, que sorte é se eu continuar lembrando pra sempre de pelo menos a metade.
Primeiro ele veio falando que a gente, quando novo, tem o costume de pensar que a vida 'tá no auge e que melhor não fica. Me identifiquei na hora, né, mas aí ele veio e disse que ele também era assim quando tinha minha idade. E completou:
- O que acontece é que, com o passar do tempo, você vai passando é por uma
TRANSFORMAÇÃO DE VALORES. Quando você 'tá novo, você pensa: "ah, eu não quero ficar velho por isso e aquilo", mas enquanto o tempo vai passando você vai se adaptando a tudo aquilo que até então era novidade, você olha pra trás e vê que aquilo que você pensou era besteira. Quando jovem, 'tá certo que você tem direito a algumas regalias, né? Mas quando você cresce e se torna um ser "totalmente responsável", vamos dizer assim
[risos], você vê que o mundo já é outro, que você também pode fazer 1000 coisas diferentes e talvez até MELHORES do que aquelas da sua juventude...
- ... Um cara numa cadeira de rodas, por exemplo. Você olha pra ele e pensa: "Nossa, que vida ruim que esse cara deve ter... Ficar andando com essa cadeira de rodas de lá pra cá... Nessa dificuldade toda...". Acaba que você fica lá morrendo de dó da pessoa, ficando até chateado POR ELA, não é?
[eu confirmo] Pois é, eu também já passei por isso...
- ... Mas acontece que essa pessoa da cadeira de rodas já passou por essa transformação de valores que eu falei... Ela já arrumou um jeito de viver bem sem precisar andar...
Você fica lá com pena dela e, se bobear, ela é até MAIS FELIZ DO QUE VOCÊ.
Realmente, né?